CLUBE DE JAZZ TAKE FIVE - Parte I

Nesta manhã acordei com a lembrança de um tempo longínquo em minha vida. Eu tinha uns 14 anos quando o interesse e a paixão pela música despertaram dentro de mim. Entrei para a aula de piano sem imaginar que aquele era o primeiro passo de uma longa caminhada. Ia para a aula e voltava para casa, voltava para a aula e ia para casa. Tocava só para mim e para meus pais. Isso mudou quando conheci o FAUSTO PRADO. O amigo SÉRGIO JAEGER nos apresentou. Mal falamos algumas palavras e já estávamos fazendo música juntos. Nossa primeira parceria foi o BAIÃO, uma composição do FAUSTO com raízes bem brasileiras. Cara, a coisa funcionou e nasceu o GRUPO RAIAR.

O GRUPO RAIAR (2ª formação): Saudoso baixista Bila (Luis Felipe), Zé Lopes (percussão), Jorge Sitó (também saudoso, baterista que entrou na banda posteriormente e era chamado de pirâmide por causa do penteado), Fausto Prado e eu.

Gostávamos do HERMETO PASCHOAL e do EGBERTO GISMONTI, músicos que eu passei a conhecer através desse pessoal. Na época havia um bar chamado BIG SOM. Ficava na esquina da José do Patrocínio com a Joaquim Nabuco. Esse bar era o final de noite e ponto de encontro de grandes músicos que vinham fazer shows em Porto Alegre. Entre esses muitos músicos estavam HERMETO, EGBERTO e DIZZIE GILLESPIE.
O GRUPO RAIAR, ainda chamado FAUSTOZEBILAMARCOS ensaiava na minha casa, que depois se transformou no ESTÚDIO FOCUS. Certa manhã, recebemos no estúdio a visita de um grande violonista de jazz que alguém havia conhecido no BIG SOM. Jazz para mim não existia até ver esse cara tocar. Fiquei louco e no dia seguinte já havia composto meu primeiro tema de jazz chamado RISADAS.

Nesse tempo eu adorava ir para a praia de TRAMANDAÍ no verão e tocar piano de cauda na COLÔNIA DE FÉRIAS DA UFRGS. Todas as noites eu ia para lá tocar e beber a caipirinha que era patrocinada pelos amigos e ouvintes. Havia essa senhora que aparecia de vez em quando e que tocava sambas, coisas de carnaval, marchinhas, Roberto Carlos e tal. Lembro que eu ficava fascinado ao vê-la tocar. Ela vinha com seu chevetinho caramelo, com a amiga Ivete, os filhos e os amigos dos filhos. Era uma festa. Quando ela tocava começava uma correria em busca do surdo, da cubana, do tamborim e tudo mais porque a coisa ia virar roda de samba. Assim conheci IVONE PACHECO: no samba e não no jazz.
Muito bem, ficamos amigos e grudamos um no outro com a cola da música. Saíamos à noite perambulando por Porto Alegre na busca de algum bar com piano. Naquele tempo, ainda existiam bares com piano. Queríamos apenas tocar, mostrar nossa música. Nem pensávamos em trabalhar. Então convidei a IVONE para conhecer minha banda e ela foi até o estúdio. Lá no estúdio, tocou para o pessoal do GRUPO RAIAR. Foi naquele dia que pela primeira vez pensei e falei em fazer um CLUBE DE JAZZ. A casa da IVONE eu já havia conhecido, pois ela tinha um piano no segundo ou terceiro andar e eu já havia ido lá para conhecer. Minha relação com a IVONE era como se fosse de mãe e filho. Eu freqüentava sua casa, era amigo dos filhos dela, e falava com ela de músico para músico. Bastava eu sugerir e ela já estava pronta. Coisas do tipo: "E aí Ivone, vamos sair na night pra fazer um som?". Quando falei CLUBE DE JAZZ, a coisa começou e não parou mais. No mesmo dia já estávamos, eu, o Sérgio Jaeger, o Calico, a Ivone, os filhos dela e outros amigos mais, pintando e baixando o piano pro porão, instalando caixas de som e inaugurando o que hoje é o CLUBE DE JAZZ TAKE FIVE.
Dona IVONE era professora de música no colégio Emílio Kemp, dona de casa, pintora e com uma cultura refinada.

Calico, Ivete, Ivone e Pé.
Jacques, Ivone, Marcos e Ivete.
Eu servi como elo entre ela e a juventude musical efervescente de uma Porto Alegre cheia de cabeludos, maconheiros, palavras proibidas, ditadura, repressão e tudo mais. O CLUBE ficava em Petrópolis, um bairro nobre. Numa casa grande e bonita. Não era um ponto de encontro dessa "gente desajustada" e sim uma casa de família. Por isso, como as reuniões não tinham data marcada e aconteciam esporadicamente, continuou sendo uma casa de família, mas também o CLUBE DE JAZZ. Nessas reuniões, o pátio e o porão que era o lugar do palco, ficavam abarrotados da "magrinhagem" e serviam como um salvo conduto para uma juventude reprimida. IVONE PACHECO foi a madrinha, a pastora, a mãe dessa gente toda. Eu era uma dessas ovelhas e amava tudo aquilo. O resto da história todo mundo conhece.
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No próximo post, mais fotos e histórias inéditas do clube. Até lá.

Comentários

  1. Muito legal esse resgate da memória, Marcos. Eu era um desses magrinhos que estive algumas (poucas) vezes naquele porão misterioso, que só os iniciados sabiam onde era. Louco pra tocar, mas não tive coragem, fiquei só ouvindo aquela loucurada. Curiosamente, foi um amigo... paulista (mas fã de jazz) quem me apresentou o clube. Manda mais aí! Álvaro Santi

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  2. Bahh Marcos, lendo seu depoimento passou um filme na minha mente!! Muito lindo tudo isso!! Bjuss
    Patrícia Mello - www.myspace.com/patricmello16 de dezembro de 2011 13:29

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  3. eu tava na parte da colonia de férias da urges no primeiro dia dormi na cancha de bocha depois arranjei um lugar , tinha um presépio grande dormi lá um dia junto com jesus e familia. como não tocava nada toquei pente que é um instrumento de bebado que já não existe mais......beijão querido. SALSICHA efraim

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    1. Existe sim Salsicha, assim como o prato e a faca de serra kkkkk

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  4. Resgatar a história é começar a compreender o universo a partir de quem somos e o quanto somos significativos um na vida do outro!! Renato Borba

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  5. Que história duca, Marcos. Isso tudo fazia parte de um sentido de vida muito importante. Muitas emoções frequentaram este Clube nestes 30 anos de vida. Recordar, viver e andar. Abraço do Max.

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  6. Muito legal recuperar a história Marcos. O Clube para mim foi muiiito importante. Tão importante que deu origem ao Clube da MPB. Em mais de trinta anos de Clube de Jazz há muitas histórias para contar e será ótimo relembrá-las ou conhecê-las...Abraço, Maíra

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  7. Sempre achei a história do Clube (que é a história de todos vocês e da Ivone, querida) apaixonante! Fico feliz de ter tido a honra de participar de alguns desses encontros (comecei a frequentar o Clube a partir dos anos 90, quando conheci a Ivone! Beijos a todos!

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  8. Que bom ler este teu registro, Marcos! Embora, infelizmente, eu não tenha feito parte do grupo, posso imaginar como deve ter sido bom esse tempo pra vocês. Era a época das reuniões dançantes, Colônia de férias da UFRGS, momentos que também vivi e me marcaram. A trajetória continua, muitas felicidades para todos vocês.

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  9. Salve Marquinhos!!grandes e bons tempos aqueles!!"tamo junto na foto mano'"!bjus Ivete!

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  10. Eu fui uma das privilegiadas deste bons tempos de Clube de Jazz. Viva longa a Ivone, Marcos Ungaretti e todos da boa música!!!!!

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  11. Não vivi isso Marcos, mas delicio-me com tuas lembranças.... Guarde-as sempre, como um tesouro da vida. Abraços fraternos...

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